“A Guerreira e os Fanfarrões” – Yoani Sánchez no Brasil

Autor: Robson Bonin

Colaboradores: Adriano Ceolin e Rodrigo Rangel

Revista Veja – 27/02/2013

A visita da cubana Yoani Sánchez revela muito sobre o Brasil e alguns brasileiros: ela enfrenta a ditadura para pedir democracia, enquanto eles usam a democracia para defender a ditadura.

A dissidente cubana Yoani Sánchez encontrou no Brasil uma raridade, jovens manipulados para defender uma ditadura. Viu patetas fantasiados de Che Guevara tentando, aos berros e à força, impedi-la de falar. A reação de Yoani foi uma aula de política. Ela pouco se importou com o conteúdo do alarido. Elogiou a liberdade de expressão existente no Brasil. Yoani aprendeu com o sofrimento que o comunismo é uma bobagem inofensiva — o que prende, tortura e mata é a ditadura. Aprendeu a valorizar o exercício da liberdade de protestar, mesmo quando o alvo é ela própria. Sua simplicidade assusta os adeptos das tiranias. Moça perigosa essa!

Perigosíssima, a blogueira de prosa mais simples do que encantatória assusta a ditadura cubana e seus seguidores no Brasil simplesmente por expor na internet os fatos básicos da vida infernal da população que deveria estar vivendo no paraíso comunista no planeta. Cuba foi um experimento da União Soviética feito em uma ilha do Caribe que se manteve enquanto Moscou mandava sua bilionária mesada para Fidel Castro. “O barco afunda. Faz água por todos os lados”, diagnosticou Fidel em 1993, no auge da penúria que se instalou em Cuba depois do desmoronamento do bloco soviético. Desde então, o governo cubano foi gastando todo o seu encantamento romântico-revolucionário, perdendo legitimidade a cada dia, mantendo-se pela hegemonia crescente dos militares no aparelho de poder e pela cultura da delação que faz de cada cidadão cubano um espião do seu vizinho. Enfim, o experimento comunista cubano assumiu as feições das ditaduras clássicas em que, em nome de uma nunca alcançada prosperidade coletiva, os tiranos suprimem as mais básicas liberdades individuais — entre elas, claro, a mais fundamental de todas, a de expressão. Em um ambiente assim, Yoani é um perigo letal para a ditadura. “Venho de um estado onde ter opinião é equivalente à traição”, disse ela na Bahia. A turba ignara não ouviu, ensurdecida pelos próprios uivos.

Em Brasília, alguns parlamentares broncos tentaram constranger a cubana com perguntas sobre suas intenções, a origem dos recursos que bancaram sua viagem. Em São Paulo, a última etapa da viagem, a jornalista e blogueira, mesmo sob proteção policial, tentou participar de um debate, mas foi impedida de falar pela claque de liberticidas manipulados pelos dinossauros ideológicos. Calem Yoani, ela é um perigo!

O Brasil recebe a visita de políticos, tiranos e pessoas comuns defendendo ideias de vários matizes, como é natural em qualquer democracia, mas poucos mereceram um tratamento tão indecoroso quanto Yoani. Ela é um alento para o povo cubano, uma plantinha que ousou brotar na aridez do fidelismo arcaico. Será que seus agressores no Brasil pararam para pensar por que em Cuba não existe acesso livre e desimpedido à internet? Por que não existem jornais? Por que Cuba é a única ilha que não possui comunidades de pescadores? Vamos lá. As duas primeiras perguntas têm respostas óbvias: o governo tem o controle total da informação. Mas e os pescadores? Por que os cubanos não podem enriquecer sua ração diária de batata com uma proteína de peixe? Simplesmente porque, em vez de pescar, eles remariam para longe da ditadura, fugiriam da prisão em que são mantidos. Yoani Sánchez é tão perigosa em Cuba quanto uma canoa a remo. Ela liberta a mente, mostra que o rei está nu. É uma moça perigosa.

Yoani Sánchez, uma mulher de 37 anos, que pesa 55 quilos e não mede mais que 1,62 metro, já foi seqüestrada, torturada e acusada de praticar a variante mais grave dos crimes punidos pela ditadura cubana: defender a liberdade. Com um computador velho e a ajuda de voluntários que recebem seus textos por e-mail e os publicam traduzidos para vinte idiomas, Yoani Sánchez rompeu os controles e virou inimiga do regime.

Uma reportagem de VEJA publicada na semana passada revelou que a perseguição à blogueira no Brasil foi planejada pela embaixada cubana em Brasília e executada por militantes do PT, do PCdoB e da CUT. Mais grave ainda: na reunião em que se tramaram os ataques a Yoani Sánchez estava presente um graduado funcionário do Palácio do Planalto — Ricardo Poppi Martins, assessor do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Gilberto Carvalho —, que recebeu das mãos do embaixador Carlos Zamora Rodriguez um dossiê contendo informações falsas e montagens fotográficas para denegrir a imagem da jornalista e ainda ouviu do diplomata que agentes iriam espiona-la. Aconteceu exatamente o que VEJA disse que ia acontecer. Alimentados pelo dossiê distribuído pelo embaixador, os militantes disseminaram na internet o roteiro de ódio que ganhou as ruas na forma de cartazes com acusações patéticas contra a dissidente — quase tudo de acordo com o que havia sido planejado. O que não estava no roteiro cubano-petista é que a tramóia seria revelada.

A estratégia de ataque do regime cubano contou com a participação decisiva dos petistas através da chamada “RedePT13” — uma organização virtual montada pelo partido para perfilar blogueiros e usuários de redes sociais alinhados ao petismo. Especializados em perseguir e difamar adversários do partido, eles são os chamados “”militantes virtuais”, e integram uma massa invisível composta de sites e perfis apócrifos na internet. Foi essa turma que, quando recebeu o dossiê contra Yoani, passou imediatamente a replicá-lo na RedePT13, transformada no braço digital da polícia política de Havana. Um despudor intolerável que mereceria a atenção do governo.

Mas como, se o governo nesse episódio vergonhoso esteve representado pelo Poppi, o servidor do Palácio do Planalto responsável pelas Novas Mídias? Poppi é um especialista em “ciberguerra”, que tem a RedePT13 como instrumento. Ele estava até a semana passada em Cuba, com as despesas pagas pelo governo brasileiro, ministrando seus conhecimentos bélicos digitais aos camaradas da ilha. Em nota, o Palácio do Planalto divulgou uma versão fantasiosa do papel do rapaz: ele teria ido à embaixada buscar o visto de viagem. Uma vez lá, por coincidência, foi convidado pelo embaixador para participar da reunião junto com mais uns quinze petistas. O bom menino teria ouvido o plano de intervenção cubana no Brasil e recebido o CD com o dossiê contra Yoani. Mas, cioso de seu dever como alto funcionário do governo brasileiro, destruiu imediatamente o material ofensivo assim que percebeu do que se tratava. Tá bom, então.

Já o chanceler Antonio Patriota se limitou a dizer que não havia tomado conhecimento da conspiração. Como se de fato nada tivesse acontecido, na quinta-feira, enquanto Yoani Sánchez era mais uma vez hostilizada em São Paulo, o embaixador Carlos Zamora Rodríguez estava no Palácio do Planalto visitando Marco Aurélio Garcia, assessor de assuntos internacionais do governo. Alguma admoestação pelo comportamento que fere os mais elementares princípios das convenções diplomáticas internacionais? Não. “Marco Aurélio é um amigo que estava enfermo”, explicou o sorridente e despreocupado embaixador cubano. O senador Alvaro Dias, do PSDB do Paraná, apresentou um requerimento para que os ministros Antonio Patriota e Gilberto Carvalho, além de Carlos Rodríguez, prestem esclarecimento ao Congresso.

O PT manteve um conveniente silêncio sobre o caso Yoani. Na quarta- feira, militantes do partido agrediram a repórter Daniela Lima, do jornal Folha de S.Paulo, que trabalhava na cobertura do encontro promovido pelo partido para comemorar seus dez anos no poder. Enquanto autoridades se encaminhavam para o salão em que Lula e Dilma discursariam, Daniela, como manda a cartilha da profissão, interessou-se pelo que parecia um protesto dos petistas. Foi recebida com provocações e xingamentos e agredida fisicamente. Um militante chutou Daniela pelas costas. Típico desses valentes. A visita de Yoani Sánchez ao Brasil acabou ajudando a explicitar um pouco mais o fato de que para certas correntes petistas a existência da imprensa livre é, em si, insuportável. A imprensa foi importante quando se tratava de mostrar os podres dos governos que precederam a chegada dos petistas ao poder. Agora seu papel é fazer propaganda do governo e saudar os feitos do PT. O jornalismo investigativo, destemido, independente teve seu lugar antes da subida do PT ao mais alto posto da hierarquia política do país. Agora, eles não querem mais ouvir falar disso. O jogo terminou. É até compreensível que os petistas pensem assim, mas é patético ver antigas feras do jornalismo investigativo, prontas a qualquer sacrifício para escancarar malfeitorias dos governos passados, transformadas em cordeirinhos balindo alegremente para os poderosos de plantão, sem nenhum apetite para a reportagem reveladora. E até possível que se movam, mas para tentar, quem sabe, descobrir algo desabonador sobre a dissidente cubana em visita ao Brasil. Afinal, ela é uma moça perigosa que enfrenta a ditadura cubana em favor da democracia, enquanto muitos usaram as liberdades da imprensa sob a democracia para agora terem o direito de bajular ditaduras.

“Esse senador é da CIA”

O embaixador cubano goza de estranhos privilégios que transcendem em muito a imunidade diplomática. Além de ter autorização para promover reuniões políticas, distribuir dossiês e espionar adversários sem ser incomodado, Carlos Zamora Rodríguez tem o poder de patrulhar parlamentares brasileiros. 0 senador Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo, sempre esteve na lista daqueles a quem os cubanos podiam recorrer, os chamados amigos da revolução,  até ele se sensibilizar com o trabalho de Yoani Sánchez. Suplicy, havia anos, defendia o direito da blogueira de deixar a ilha, o que o regime comunista não permitia. Chegou a enviar uma carta à embaixada solicitando uma autorização especial para a jornalista se ausentar do país. Foi o bastante para transformar o senador em “inimigo da revolução”. E, como todo inimigo da revolução, o parlamentar foi automaticamente promovido a agente da CIA, a agência americana de espionagem.

Ao se aliar à defesa de Yoani Sánchez, Suplicy virou persona non grata no regime. “Como é que o PT permite isso? Esse senador é da CIA”, esbravejou o embaixador ao receber a carta. A acusação foi ouvida por outro senador da República, Roberto Requião, do PMDB do Paraná, que ainda tentou defender o colega: “Se o Suplicy é da CIA, eu também sou”. Requião tentou, sem sucesso, promover uma reconciliação entre o senador e o embaixador. A revolta de Carlos Zamora contra Suplicy foi parar na cúpula do PT, a quem o embaixador se queixou formalmente da postura do senador – inclusive advertindo que o mau comportamento de Suplicy poderia comprometer a boa relação de Havana com o partido. Subserviente, o PT não defendeu o senador. Ao contrário, comprometeu-se a cerrar fileiras contra a visita da blogueira. Resignado, Suplicy ainda tentou por meses uma audiência com o embaixador para se explicar, mas nunca conseguiu ser recebido. Na semana passada, ao lado de Yoani, ele também foi alvo da hostilidade dos manifestantes, muitos deles petistas, que atacaram a blogueira cubana. “Sempre defendi a democracia. Como diz a presidente Dilma, é melhor o barulho da liberdade de expressão do que o silêncio da ditadura, e, por isso, vou continuar defendendo a liberdade em Cuba”, afirmou ele.

Entrevista: Yoani Sánchez falou a Duda Teixeira e Branca Nunes, de VEJA, na sexta-feira 22, em São Paulo, no escritório da Editora Contexto, que publicou seu livro De Cuba, com Carinho.

_ Por que o governo cubano e os castristas brasileiros têm pavor da senhora?

_ Eles temem a palavra, o argumento e o raciocínio lúcido dos que estão em Cuba e são críticos do regime, ou têm alguma opinião diferente da do Partido Comunista. O governo simplesmente tem medo de que a comunidade internacional nos escute.

_ Qual é o poder que a comunidade internacional tem sobre a ditadura cubana?

_ A opinião das entidades de direitos humanos é importante para estimular reformas em Cuba. Lamentavelmente, nós, cubanos, estamos presos a um estereótipo. Muita gente em outros países crê que o nosso povo é totalmente a favor do governo. Não somos todos comunistas. Não usamos farda verde-oliva. Se a comunidade internacional enxergar a pluralidade que existe entre nós, estaremos mais próximos da mudança.

_ A senhora disse que os slogans dos manifestantes brasileiros já não se escutam em Cuba. Qual lhe surpreendeu mais?

_ “Cuba sim, ianques não”, por exemplo. Está fora de moda. Em Cuba não usamos mais a palavra ianque para os americanos. Falamos yuma, que não é pejorativo. Ao contrário, mostra certo encanto em relação a eles. A propaganda estatal, de ataques aos Estados Unidos e ao imperialismo, criou um sentimento contrário do esperado. A maioria dos jovens cubanos hoje é fascinada pelos americanos. Eu até acho ruim esse enaltecimento de outro país, mas é uma realidade.

_ Em 2007, o Brasil deportou dois boxeadores cubanos que tentavam o exílio. Qual sua opinião sobre isso?

_ O governo brasileiro teve um triste papel nesse caso, de cumplicidade. Quando os atletas retornaram, o governo cubano fez um linchamento público na imprensa oficial, com vários insultos. Fidel Castro falou na televisão que um deles foi visto com uma prostituta na praia. Os filhos e a mulher desse homem foram expostos a isso. Foi um episódio bastante lamentável.

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Uma resposta para “A Guerreira e os Fanfarrões” – Yoani Sánchez no Brasil

  1. pmpcorrea disse:

    Duas razões trouxeram a jornalista e blogueira Yoani Sanches para o Brasil: o lançamento do documentário “Conexão Cuba-Honduras”, dirigido pelo baiano Doda Galvão, e a divulgação de seu livro “De Cuba, com Carinho”, publicado pela editora Contexto. Ao mesmo tempo que ficou surpresa com a liberdade de manifestar-se que têm os brasileiros (temos mesmo?) ainda surpreendeu-se com a violência dirigida a si, alguém que quer poder se expressar também: “Não deixar o outro falar não é democracia. É fanatismo. Acho que, mesmo quando não estamos de acordo, todos têm o direito de expor sua opinião.”.

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